QUANTO VALE UM INVESTIMENTO QUE VOCÊ NÃO FEZ?

A pergunta pode parecer estranha, pois estamos acostumados a medir o sucesso de uma carteira de investimentos pela rentabilidade obtida. Olhamos o quanto determinado fundo rendeu, se aquela ação se valorizou ou se a carteira superou algum índice de referência. São resultados objetivos e fáceis de se observar.
Mas essa é apenas uma parte da história, pois o resultado de uma carteira também é consequência dos erros que foram evitados ao longo do caminho. Um investimento inadequado que não foi realizado, uma concentração excessiva que foi evitada, ou uma decisão precipitada que acabou não sendo tomada no meio de uma turbulência, podem ter tanta importância para a construção do patrimônio quanto a escolha de um bom investimento.
A diferença é que esse resultado é muito mais difícil de perceber. O extrato mostra quanto você ganhou ou perdeu naquilo que comprou, mas nunca quanto você deixou de perder naquilo que acertadamente decidiu não comprar.
Imagine por exemplo a seguinte situação: oferecem a você um investimento pagando uma taxa de juros muito acima da média do mercado. A princípio parece uma excelente oportunidade, mas uma análise mais cuidadosa mostra que aquele retorno adicional não é suficiente para compensar o risco assumido, ou simplesmente que o investimento não é adequado ao seu perfil, e você decide não investir. Alguns meses depois, o emissor enfrenta problemas, e o investimento sofre uma grande perda. Quanto rendeu para você a decisão de não investir? A resposta não é tão simples, pois não houve aplicação, rentabilidade ou qualquer registro daquela decisão na carteira.
Mas o dinheiro que poderia ter sido perdido continua fazendo parte do seu patrimônio.
O mesmo raciocínio vale para uma dívida. Imagine alguém que precise de R$ 500 mil e, para não mexer em seus investimentos, considere contratar um empréstimo pagando 2% ao mês. Se há recursos líquidos na carteira rendendo muito menos do que o custo da dívida, e o resgate não gera prejuízos, faz sentido manter o investimento e tomar o empréstimo? Provavelmente a comparação mais importante nesse momento nem seja entre diferentes alternativas de investimento, mas entre o retorno líquido esperado da carteira e o custo efetivo da dívida. Em determinadas situações, resgatar um investimento pode ser uma decisão financeiramente muito mais eficiente do que contratar um empréstimo.
Aqui nesse exemplo, de novo, não haverá uma linha no extrato mostrando o resultado dessa escolha. Os juros que deixaram de ser pagos simplesmente nunca existirão. Mas o efeito dessa decisão sobre o patrimônio existe e ele é real! Talvez por isso tenhamos uma percepção incompleta sobre o que significa obter bons resultados com investimentos. É muito mais fácil enxergar aquilo que fizemos do que aquilo que não fizemos e ficou pra trás.
Escolher bons investimentos importa, sem dúvida alguma, mas evitar riscos desnecessários, custos ou impostos elevados, decisões emocionais e operações que parecem atraentes apenas à primeira vista, também faz parte da construção e preservação do patrimônio.
E talvez essa seja justamente uma das contribuições menos perceptíveis de um bom profissional de investimentos na vida financeira e patrimonial de seus clientes. Seu valor não está apenas nas oportunidades que apresenta, mas também naquelas que recomenda evitar, nas decisões que ajuda a ponderar e, algumas vezes, simplesmente em mostrar que não fazer nada é a melhor alternativa naquele momento específico.
Para isso, conhecer profundamente o(a) cliente faz toda a diferença. Seus objetivos, seu patrimônio, sua família, suas necessidades de liquidez e, principalmente, a forma como costuma reagir diante das diferentes situações de mercado. É esse conhecimento, construído ao longo dos anos e baseado em uma relação de confiança, que permite analisar cada decisão, não de forma isolada, mas dentro de um contexto financeiro e patrimonial muito mais amplo.
No final, algumas das melhores decisões financeiras talvez sejam justamente aquelas que nunca aparecerão no seu extrato.
Até breve!





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